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Brevemente - Grande Entrevista a José Carlos Bravo Nico
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03:29 1 comentários

Enterrar os mortos e cuidar dos vivos


Chego a Évora quando todos os outros partiram. Ninguém está cá, propriamente, para me receber. No entanto venho, simplesmente porque há contingências que me obrigam a vir.
Évora está cá, no mesmo sítio. Os mesmos contornos que se aproximam, que se revelam, que se descobrem à medida que os quilómetros encurtam a distância entre o Eu e o Tu, cada vez menos longínquo. Silhueta amuralhada formada por campanários, torres e arcos aquíferos que identificam esta ilha no meio de desertos de montados e colinas.
Passear aqui é uma surpresa constante. Contudo, coloca-se uma questão que vai muitíssimo para além daquilo que poderia ser uma jornada turística ou meramente veraneante. E se Évora fosse Áquila?
Muitas vezes surge-se me esta questão, emerge este terrível panorama, este diabólico medo que poderá, um dia, não ser mais do que mera realidade.
Impossível esquecer, neste momento, as imagens que nos surgem constantemente, no seio de um mundo onde a informação chega à velocidade da luz. E perante imagens globais, sentimentos globais.
É desolador ver aqueles rostos devastados, aqueles corpos sem rumo, se destino, sem nada. Casas com tectos de céu. Paredes onde as portas já não são precisas, porque já nem paredes são. Amontoados de coisa nenhuma onde outrora estavam as ruas, os arcos, os campanários…
Junto do nada, reúne-se a desilusão de quem tudo perdeu, a dor de quem perdeu alguém, o corpo de quem não conseguiu fugir a tempo. Áquila parece ter sido vítima de um bombardeamento em contexto bélico. Contudo, a guerra que ali se travou teve a Natureza como principal inimigo, munida de armas ferozes, invencíveis, mortíferas na sua plenitude. Cobardemente atacou de noite, levando no leito da morte grande número dos seus habitantes, das suas vítimas. Os sobreviventes, esses, espalham-se pelos campos de refugiados, amontoando o desespero, a falta de coragem, o medo e a angústia.
E se Évora fosse Áquila? Nas nossas atarefadas caminhadas, por acaso parámos para pensar nisto? E se os destinos desnorteados fossem os nossos? Os rostos pesarosos, os nossos? Aquela desgraça, a nossa?
Foi lá, simplesmente porque não foi aqui. Mas se tivesse sido aqui? Seriamos capazes de imaginar uma Évora feita de escombros, de esquinas, torres e arcos desfigurados, das pedras da História sem mais histórias para contar? É difícil, mas é possível.
As tendas azuis podiam ser as nossas futuras casas, aqueles rostos empoeirados o meu, o teu, os nossos. Felizmente, para nós, foi lá, e não foi cá. Torna-se horrível dizê-lo, porque soa a indiferença. Mas ao mesmo tempo é bom poder dizê-lo porque significa que pudemos, nos últimos 5 minutos ler descansadamente, em nossas casas, no conforto dos nossos sofás ou das nossas camas, com os candeeiros ligados ou com o sol a jorrar pela janela, um simples texto dum jornal globalmente divulgado que se debruçava sobre uma desgraça que aconteceu a uns pobrezinhos italianos – coitadinhos! A nossa vida continuará igual, rotineira, quotidianamente normal, independentemente de tudo. Contudo, e se Évora fosse Áquila?


Carlos Carvalho
13:19 0 comentários

De capa, saia, pandeiretas e estandartes


Chegaram de capa, saia, pandeiretas e estandartes. Nas sacolas, os múltiplos e variados instrumentos musicais que as acompanham para todo o lado, como provam os autocolantes, as lembranças e os quilómetros de estrada que ostentam.
As estreitas ruas de Évora foram apertadas para receber a alegria, o ritmo e os sons académicos que transportavam. Os sorrisos convidativos, as margaridas nas orelhas e os óculos excêntricos na cabeça a todos contagiaram e Évora tornou-se melodicamente mais unida e a noite mais clara e sonora.
As capas negras e azuis cobriam os espíritos bem-dispostos de quem não vem pela competição, mas sim pelo simples e simpático gosto que cobre os verbos conhecer, conversar, divertir-se.
Pelos arruamentos eborenses, as pandeiretas e os bombos preenchiam o ambiente. Os estandartes prendiam o olhar de quem, espantado, fitava os habilidosos malabarismos. As vozes afinadas entoavam os alegres cânticos académicos e, por momentos, todas aquelas pessoas eram uma só, uma só alma presa pela música a uma união feita de notas e de pautas.
O palco foi pequeno para as receber. Chegaram com garra, com vontade, com as vozes e os instrumentos afinados, prontas para vencer, para convencer, para triunfar, para arrancar das vozes mais tímidas as notas e dos espíritos mais reservados os aplausos.
Os ritmos variaram e, com eles, as emoções e os olhares.
Ouvimos o Algarve e a Capital, o Sado e o Mondego, e no final, não queríamos sair, pensar sequer que tudo já tinha acabado, porque afinal há momentos que desejaríamos que se prolongassem, nem que fossem só mais uns minutinhos.
Na memória ficou-nos todos aqueles rostos, novos, alegres, musicais. Na memória ficou-nos aquele fim de semana que foi, sem duvida, curto, para conseguirmos apreciar tudo quanto queríamos apreciar (em termos musicais, claro está!...).
E assim como chegaram, assim partiram, de capa, saia, pandeiretas e estandartes…


Carlos Carvalho
06:39 0 comentários

Pomba morta... Pomba posta?


Já a noite ia alta e o Colégio do Espírito Santo embrulhado na capa nocturna que havia abraçado a cidade. As suas luzes, meros focos de presença, guiavam as pessoas tenebrosamente, porque afinal era momento de luto.

No pequeno claustro jesuítico, conformado com as novas actividades académicas, decorria a missa de corpo presente (bem missa não houve, corpos presentes estavam lá uns quantos…) daquela que há 450 anos é o símbolo deste espaço de sapiência, ensinamento e aprendizagem.

Já estava velhinha, bem certo. 450 anos deram direito a ver muita coisa, a assistir a muitos espectáculos bons e degradantes, a ver passar muitos burros armandos em doutores e muitos doutores armados em burros. Mas ela lá continuou, de braços abertos, ou melhor, de asas abertas, pronta para receber quem quer que fosse, a que horas fosse, com que propósitos fosse.

Espalhados pelas arcadas marmóreas, os estudantes, envoltos com mais ou menos confusão nas negras capas, empunhavam velas que espelhavam a expressão pesarosa e triste, pois o momento também não era para menos.

No meio do claustro, o caixão. Dele ainda saiam as duas asas brancas da defunta, como se, mesmo depois de morta, insistisse em marcar a sua presença, num derradeiro voo para a eternidade.

Entre a marcha fúnebre e alguns gritos de revolta e dor (havia-se optado pela não contratação de carpideiras, já que algumas meninas histéricas, movidas pela tamanha tristeza que suportavam, poder-se-iam ocupar disso) lá seguiu o cortejo. À frente, o caixão, empunhado bem alto. Atrás, uma mole negra, pontuada pelas flamejantes pontas de fogo, seguia-o.

De vez um quando, a noite escura era pontuada por um grito, de dor… dor não pela perda da falecida, mas sim porque uma gota de cera quente havia caído na mão de algum participante mais descuidado e incauto.

Por fim, a leitura do testamento na Catedral, repleto de críticas e apupos redigidos, aguçadas facas que atingiram os principais focos de descontentamento estudantil, que perturbam os nossos presentes e assombram os nossos futuros. Se essas facas fossem verdadeiras, teriam morto mais uns quantos… mas desta vez “safaram-se”.

Leram-se os últimos desejos da falecida, as habituais partilhas, lavradas já em oficial documento para evitarem possíveis quezílias. Ficou bem estabelecido quem ficava com o quê, e penso que todos ficaram satisfeitos (principalmente o Sr. Zé Mendes, calculo eu, que passará a poder usufruir, a seu belo prazer, da Aula Magna da Universidade).

Terminaram deste modo as exéquias. E como a morte deverá ser encarada como um momento de festa, como já não havia nada a fazer (porque afinal de contas o mal é de quem parte) e como as gargantas já estavam a ficar secas (da emoção e da comoção, claro está!…), dirigiram-se os estudantes à capelinha do BarUÉ rezar um pouco pela alma da falecida, entre dois ou três golos de cerveja, gentilmente oferecida pelos organizadores do evento… perdão, do funeral.

Paz à sua alma, à da pomba, claro! E em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…

Carlos Carvalho
04:04 0 comentários

Brevemente

Brevemente teremos "Espírito da Coisa" no UE'Spirito, uma crónica semanal de opinião com a assinatura de Carlos Carvalho.

UE'Spirito